Foi ontem. Foi assim que tudo tornou a acontecer. Não tem inteira razão quem diz que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Deixe-me, porém, ser mais enigmático: decifra-me ou devoro-te. A Esfinge ainda continua desafiando. Acontece todo santo dia.

Se você quiser entender o que pretendo lhe contar, pare o que estiver fazendo e leia meu conto O javali, constante de meu livro O risco e o laço: traçados do destino nagô, lançado pela Via Litterarum, sob a égide do indefectível Agenor Gasparetto.

Voltemos ao que eu ia contar. Começo recuperando a penúltima frase do conto O javali, quando o narrador escreveu (Espere aí, mas o narrador não seria eu? Está vendo como a Literatura tem o dom de fazer o escritor se trair?): “Prometo, porém, nunca mais virarei para trás ao ouvir um grito na multidão.” É justamente aqui que a cancela do curral do mundo se abriu e o javali veio às carreiras em busca de mim. Já estamos íntimos, só você vendo.

Pois bem... Vinha eu, assim, desinflamado, percorrendo a calçada que margeia o jardim da Praça José Bastos... Ah, José Bastos, quanto a memória grapiúna tem sido ingrata com você. Deram seu nome àquela praça, mas pergunte à população quem foi o poeta José Bastos. Certamente a resposta será “Quem?” Desde 1937, ele se despediu de nós e saiu em silêncio. Deixou como herança Horas Líricas, recheadas de versos sentimentais. Isso, hoje, se constitui motivos para os sabidílios lhe atirarem pedras, Ah, como falta aos sabidílios a capacidade de se debruçarem sobre os dados evidentes, atravessarem a realidade e examinarem o real oculto.

Pois bem... Lá vinha eu pela lateral da José Bastos, já disse. Do outro lado da rua, bem da porta do Bolo Fofinho, uma voz feminina tocou as trombetas para derrubar os muros de Jericó: Javaliiii!!! Quase caí para trás. Quem disse que eu me lembrei da promessa com a qual encerro O Javali? Em vez de me virar para ver de qual garganta aquele grito tinha partido, olhei para os lados e atravessei a rua correndo. Parecia que eu era portador de uma sede milenar e acabara de divisar uma pequena fonte no meio de um minúsculo oásis.

Por força da idade já cheguei à calçada oposta um pouco ofegante. E lá estava ela. Sorridente, oponente, bem-vestida, bem trajada, a Marquesa de Todas as Tribos. Nos abraçamos calorosamente. O resto não precisava ser dito. Era a expressão legítima do extravasamento da alegria do encontro.

 Ah, sim: de que tratamos? Ora, ora, ora: o que conversariam um Javali com uma Marquesa? Que tal, você, agora, imaginar o diálogo que ocorreu? Se puder, faça isso e mande para mim. Ah, sim, meu contato, já está lá, no conto O javali.