Senhoras e senhores,  permitam-me começar com versos que atravessaram mais de um século e permanecem inquietantemente atuais.
São palavras de Castro Alves, no poema O Livro e a América, integrante da obra Espumas Flutuantes:“
“Oh! Bendito o que semeia
Livros … livros à mão cheia …
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma,
É germe que faz a palma,
É chuva que faz o mar ...”Oh

Esses versos não são apenas belos. Eles são um manifesto. Um programa de civilização. Uma convocação moral.
Castro Alves viveu no século XIX, em um Brasil ainda escravocrata, desigual, marcado por abismos sociais profundos. Ficou conhecido como o “Poeta dos Escravos” por obras como Os Escravos, publicadas postumamente, nas quais denunciava com vigor a brutalidade da escravidão. Para ele, a poesia não era mero ornamento estético; era instrumento de transformação histórica.
No contexto em que escreveu “O Livro e a América”, o Brasil era um país de analfabetos. O acesso ao livro era privilégio de poucos. A educação era restrita, e o pensamento crítico, raro. Quando ele proclama “Bendito o que semeia livros”, está afirmando algo revolucionário: espalhar livros é espalhar liberdade. Distribuir leitura é distribuir consciência. Incentivar o povo a pensar é plantar as sementes da emancipação.
Observem a potência das imagens: o livro é germe. É semente viva. Não é objeto inerte. Não é mercadoria. É força orgânica, transformadora. Ao cair na alma, germina. Cresce. Produz frutos. E, como a chuva que faz o mar, a leitura individual pode, somada a milhares de outras, transformar o destino coletivo de uma nação.
Naquele tempo, o inimigo era a ignorância imposta pela exclusão social e pela escravidão. Hoje, vivemos um paradoxo distinto — mas igualmente desafiador.
Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca houve tantos livros disponíveis, tantas bibliotecas digitais, tantos cursos online, tantas ferramentas de aprendizado. E, no entanto, enfrentamos uma crise silenciosa: a superficialidade do pensamento.
Vivemos na era da velocidade. Textos são reduzidos a manchetes. Ideias são condensadas em frases curtas. Reflexões são substituídas por reações instantâneas. A leitura profunda, paciente, contemplativa, cede espaço ao consumo fragmentado de conteúdos.
E, nesse cenário, surge um novo protagonista da história humana: a inteligência artificial.
Ferramentas de IA são capazes de produzir textos, análises, imagens, diagnósticos, soluções. Elas ampliam nossa capacidade produtiva, democratizam o acesso ao conhecimento e aceleram processos antes inimagináveis. Seria fácil, portanto, supor que estamos mais inteligentes do que nunca.
Mas há uma pergunta incômoda que precisamos enfrentar: estamos realmente pensando mais — ou apenas delegando o pensamento?
Castro Alves nos alertaria: não basta multiplicar livros; é preciso “mandar o povo pensar”. Não basta gerar respostas; é preciso formar consciências.
A inteligência artificial é instrumento. É amplificador. Ela expande o alcance da mente humana, mas não substitui a responsabilidade de pensar criticamente. Uma ferramenta não possui consciência moral. Não possui compromisso ético. Não possui experiência existencial. Quem a orienta somos nós.
Se utilizarmos a tecnologia para evitar o esforço da reflexão, estaremos empobrecendo nossa própria humanidade. Se a utilizarmos como apoio para aprofundar a compreensão, comparar ideias, questionar premissas e expandir horizontes, estaremos honrando o espírito de Castro Alves.
O problema não é a tecnologia. O problema é a passividade.
Quando o poeta fala do livro como “chuva que faz o mar”, ele nos ensina que a transformação social é cumulativa. Pequenas leituras, pequenas reflexões, pequenas inquietações, quando compartilhadas, constroem oceanos de mudança. O mesmo vale hoje: cada leitura crítica, cada conversa profunda, cada dúvida sincera contribui para fortalecer o tecido intelectual da sociedade.
Uma sociedade que não lê é uma sociedade vulnerável. Vulnerável à manipulação, à desinformação, ao extremismo, à simplificação das complexidades humanas. Uma sociedade que não pensa é facilmente conduzida. Uma sociedade que não questiona perde a capacidade de se autogovernar com maturidade.
Castro Alves lutou contra a escravidão física. Nós enfrentamos, talvez, formas mais sutis de escravidão: a escravidão do imediatismo, da distração constante, da dependência acrítica de algoritmos.
Se antes a exclusão do livro mantinha o povo distante da liberdade, hoje o excesso de informação, sem reflexão, pode nos afastar da sabedoria.
É preciso, portanto, recuperar o sentido do livro — não apenas como objeto impresso, mas como símbolo de profundidade. Ler é dialogar com mentes distantes no tempo e no espaço. É submeter nossas certezas ao confronto com outras perspectivas. É aprender a argumentar, a duvidar, a ponderar.
A inteligência artificial pode oferecer respostas. Mas só a consciência humana pode formular boas perguntas.
E aqui reside o ponto central da mensagem de Castro Alves para o nosso tempo: o progresso técnico não substitui o progresso moral e intelectual. Podemos ter máquinas extraordinárias, mas, se não cultivarmos espíritos críticos, corremos o risco de ampliar nossa capacidade de agir sem ampliar nossa capacidade de discernir.
“Bendito o que semeia livros…” — hoje poderíamos dizer: bendito o que semeia pensamento. Bendito o que estimula a leitura atenta. Bendito o que ensina a questionar. Bendito o que forma cidadãos capazes de usar a tecnologia com responsabilidade e autonomia.
A educação, em qualquer época, é o maior ato político. Não no sentido partidário, mas no sentido civilizatório. Educar é capacitar alguém a compreender o mundo para transformá-lo. É oferecer ferramentas intelectuais para que a liberdade não seja apenas formal, mas concreta.
Se quisermos honrar o legado de Castro Alves, precisamos promover mais do que acesso à informação. Precisamos promover profundidade. Precisamos incentivar o hábito da leitura integral, da análise cuidadosa, do debate respeitoso.
Precisamos ensinar as novas gerações a utilizar a inteligência artificial não como muleta, mas como trampolim — não como substituto da reflexão, mas como catalisador do pensamento.
O livro que cai na alma ainda é germe. Mas ele precisa de solo fértil. Esse solo é a disposição interior de aprender, de escutar, de rever convicções. Sem isso, nem a melhor tecnologia produzirá uma sociedade mais justa.
Permitam-me concluir retomando a imagem da chuva que faz o mar.
Cada leitura feita com atenção é uma gota. Cada pergunta sincera é uma gota. Cada conversa profunda é uma gota. Isoladamente, parecem pequenas. Mas, reunidas, formam oceanos de consciência.
Castro Alves acreditava no poder da palavra para libertar. Hoje, cabe a nós acreditar no poder da reflexão para orientar a tecnologia. Que não sejamos apenas consumidores de respostas prontas. Que sejamos construtores de pensamento.
Porque, no fim das contas, a verdadeira revolução — ontem como hoje — começa quando alguém abre um livro, permite que ele caia na alma, e decide pensar.
Muito Obrigado!

Antônio Carlos de Souza Hygino.

Cadeira nº 1 da Academia de Letras de Ilhéus – Bahia

Ilhéus, 14 de março de 2026