Recentemente, precisei passar por um período de repouso. Nesse tempo de pausa forçada, reli a Ética a Nicômaco. É impressionante como alguns livros não se esgotam na primeira leitura; ao contrário, parecem mais grandiosos. A cada releitura, eles nos acrescentam algo novo, trazem à tona sentidos que antes permaneciam latentes, quase à espera do nosso momento certo para serem compreendidos.
Em meio a um tempo marcado por caos, conflitos e ruídos constantes, esta obra me falou de paz. Falou de uma vida vivida com mais plenitude, equilíbrio e sentido. Um convite a habitar vida de modo mais consciente, ético e feliz.
A ética, desde a Antiguidade, não foi pensada como um conjunto abstrato de regras, mas como um caminho para viver bem. Em Aristóteles, essa compreensão alcança uma formulação sólida: a ética orienta o ser humano na construção de uma vida realizada, em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
Para Aristóteles, toda ação humana se dirige a um fim. Entre todos os fins possíveis, há um que se distingue por ser desejado por si mesmo: a eudaimonia, frequentemente traduzida como felicidade, mas que significa, de forma mais adequada, realização plena da vida humana. Essa realização não se confunde com prazer imediato, riqueza ou reconhecimento social. Ela se constrói ao longo do tempo, por meio de escolhas conscientes, orientadas pela razão e pela virtude. Como afirma o próprio Aristóteles: “O bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa, numa vida completa.” (p. 12)
É nesse ponto que a ética se revela como fonte de paz interior. Viver eticamente não significa eliminar conflitos ou emoções, mas aprender a ordená-los. A pessoa ética não é aquela que nunca erra, mas aquela que age de modo refletido, consciente de seus limites e responsabilidades. Essa coerência entre pensamento, decisão e ação gera uma forma profunda de tranquilidade, a paz de quem sabe por que age e para onde caminha.
A felicidade, nessa perspectiva, não é um estado emocional passageiro, mas uma atividade contínua da alma conforme a virtude. Ela nasce do exercício constante do que há de mais humano em nós, a razão prática. Ao agir de acordo com princípios internalizados e não por impulsos momentâneos ou pressões externas, o indivíduo constrói uma vida mais estável, menos sujeita às oscilações e aos excessos do mundo.
Nesse processo, o equilíbrio ocupa um lugar central. Aristóteles ensina que a virtude é o justo meio entre dois extremos viciosos, o excesso e a falta. É a medida adequada. A coragem, por exemplo, não é nem temeridade nem covardia. A generosidade não é nem desperdício nem avareza. A serenidade não é nem apatia nem descontrole. O equilíbrio ético permite que emoções, desejos e razão coexistam de forma harmoniosa.
Esse equilíbrio não é automático nem dado pela natureza. Ele é aprendido pelo hábito, pela repetição consciente de escolhas orientadas pela razão. O próprio Aristóteles deixa isso claro ao afirmar: “Não é, pois, por natureza, nem contrariando a natureza que as virtudes se geram em nós. Diga-se, antes, que somos adaptados por natureza a recebê-las e nos tornamos perfeitos pelo hábito.” (p.22)
Tornamo-nos justos praticando ações justas, moderados praticando ações moderadas, pacientes exercitando a paciência. A ética, portanto, manifesta-se nos pequenos gestos cotidianos, muitas vezes quando ninguém observa. É nesses atos aparentemente simples que se constrói um caráter sólido e uma vida rica de sentido.
A ética aristotélica nos lembra que a felicidade não é um projeto solitário. O ser humano se realiza em comunidade. A amizade, a justiça e o compromisso com o bem comum são dimensões essenciais de uma vida ética. Agir bem não beneficia apenas o indivíduo, mas fortalece os vínculos sociais e cria ambientes mais justos, confiáveis e pacíficos. A paz interior, nesse sentido, está intimamente ligada à paz nas relações.
Não se trata de seguir regras rígidas, mas de desenvolver discernimento, prudência e sensibilidade para agir bem em situações concretas. A ética nos ensina a não viver à mercê dos extremos, do excesso de consumo, de trabalho, de estímulos ou de emoções, mas a buscar uma vida equilibrada, significativa e orientada por valores duradouros.
Assim, a ética nos conduz à paz porque nos reconcilia conosco mesmos, à felicidade porque nos permite realizar nossa natureza racional e a uma vida rica de sentido, transformando-se cada escolha em parte de um caminho coerente. Viver eticamente é, em última instância, aprender a viver bem, não apenas por momentos, mas ao longo de toda a vida.
Em meio ao silêncio imposto pela pausa, a Ética a Nicômaco não me ofereceu respostas prontas nem promessas fáceis, mas um convite à reconciliação com o tempo, com as escolhas e comigo mesma. Talvez seja isso que torna certos livros tão necessários. Eles não nos afastam da vida, mas nos devolvem a ela com mais lucidez, mais calma e mais sentido.
Ao fechar o livro, percebi que a paz da qual Aristóteles fala é a serenidade que nasce quando aprendemos a viver com medida, consciência e fidelidade ao que somos. E, nesse sentido, a ética deixa de ser apenas um tema filosófico para se tornar, um modo de habitar o mundo.
Raquel Rocha
Psicóloga, Especialista em Neuropsicologia, Saúde Mental e Terapia familiar.


















































































